ENFRENTANDO O PROBLEMA DA EVASÃO DE MEMBROS
Pastora, Maria Valda
Introdução: -Um
neologismo tem se tornado comum nos últimos anos – “fidelização”. Trata-se
de um termo da área de publicidade e marketing que traduz um desejo de
empresas em diferentes ramos de atividade: o de que seus clientes
ou consumidores se mantenham fiéis a elas e a seus produtos. Especialmente
em setores nos quais existe forte concorrência, trata-se de um alvo buscado
com crescente intensidade. Evidentemente, a fidelidade das pessoas a um
determinado fornecedor ou prestador de serviços pode não ter quaisquer
implicações éticas. Se alguém é cliente da pizzaria “a” ou “b” e utiliza
os serviços dessa ou daquela companhia de telefonia celular, isso não tem
maiores consequências fora da área mercadológica. Em outras esferas,
todavia, a fidelidade adquire uma importância muito maior, como é o caso
da política partidária. No Brasil, há muito tempo um bom número de
políticos tem se envolvido com uma prática condenável: a troca frequente de
partidos, geralmente por motivos pouco elogiáveis. Eles se filiam a uma
legenda, elegem-se por ela e depois, movidos por interesses muitas vezes
questionáveis, simplesmente se transferem para outra. Em anos recentes têm
sido aprovadas leis visando coibir a chamada “infidelidade
partidária”. Pois bem, esse é um tema que também interessa de perto às
igrejas evangélicas.
É um fato conhecido que muitas delas,
se não todas, experimentam um considerável êxodo de membros. Muitas vezes
é feito um grande esforço no sentido de atrair novos adeptos, para depois
perder parte deles pelos mais diferentes motivos. Muitos líderes parecem
não estar preparados para lidar com essa realidade e são escassos os materiais
publicados que tratam do assunto desde uma perspectiva pastoral. O
objetivo deste artigo é analisar essa questão dos pontos de vista
histórico e bíblico, bem como propor estratégias a serem tomadas para
amenizar esse problema.
1. Dimensão Histórica
O problema
da evasão de seguidores já pode ser visto no Novo Testamento, desde a
época do ministério de Jesus. É bem conhecido o episódio em que, depois de
um discurso contundente do Mestre, muitos de seus discípulos deixaram de
segui-lo (Jo 6.66). Na igreja primitiva, o abandono da comunhão cristã
geralmente estava associado à apostasia, à deserção da fé, sendo
condenado vigorosamente. É essa a atitude do autor da 1ª Epístola de João,
que se refere aos desertores como “anticristos” e acrescenta: “Eles saíram
do nosso meio; entretanto não eram dos nossos; porque, se tivessem sido
dos nossos, teriam permanecido conosco; todavia, eles se foram para que
ficasse manifesto que nenhum deles é dos nossos” (1Jo 2.19). Na 1ª
Epístola a Timóteo, Paulo afirma que, nos últimos tempos, alguns
apostatariam da fé (1Tm 4.1).
É importante lembrar que os primeiros cristãos entendiam estar vivendo
nos últimos dias. Assim, a realidade da apostasia era algo contemporâneo,
e não somente futuro. A epístola aos Hebreus lida muito diretamente com a
problemática do abandono da fé, exortando os crentes a perseverarem no
evangelho (2.1-3; 3.12-13; 6.11-12). A certa altura, o autor deixa claro
que a deserção da comunidade cristã era uma realidade naqueles dias, mas apela
aos seus leitores para que resistam contra isso: “Não deixemos de
congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e
tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima” (10.25).
Essa problemática continuou existindo nos três primeiros séculos da era cristã,
o período em que o cristianismo era considerado uma religião ilegal (religio
illicita). As duas principais causas de afastamento da igreja eram
o fascínio das heresias ou das religiões alternativas e o temor das
perseguições. Muitos cristãos deixavam a “igreja católica”, a corrente
principal do cristianismo, considerada ortodoxa, fiel ao legado de Cristo
e dos apóstolos, para se unir a manifestações heterodoxas como o
gnosticismo, o montanismo, o marcionismo e outros movimentos. A literatura
cristã antiga está repleta de alusões a esses grupos e aos males que
causavam à igreja e seus fiéis.
No contexto das perseguições, muitas delas restritas e localizadas, e
outras amplas e gerais, um grande número de pessoas abandonava a
comunidade cristã. Elas o faziam justamente para não serem submetidas aos
sofrimentos resultantes da ação repressora do estado. Porém, cessada a
perseguição, surgia um difícil problema pastoral a ser enfrentado pelos
bispos, os líderes da igreja. Muitos desses indivíduos que haviam negado a
Cristo e se entregue à idolatria e outras práticas, arrependiam-se e
manifestavam o desejo de retornar à igreja. As atitudes dos bispos
variavam em relação a tais pessoas: alguns deles, adotando uma postura
tolerante, reintegravam-nas com relativa facilidade; outros, conhecidos
como “rigoristas”, submetiam-nas a um longo e árduo processo de reinserção
na comunidade cristã. Em alguns casos, esse processo podia durar a vida
inteira e o indivíduo somente era readmitido à comunhão no seu leito
de morte, caso tivesse se mantido fiel até então. Essa situação viria a
resultar no desenvolvimento do sacramento da penitência, que visava lidar
com a realidade do pecado na vida dos batizados.[1]
Com o advento da era constantiniana, no início do quarto século, marcada pela
aliança da igreja com o estado e pelo surgimento do cristianismo como
religião oficial do Império Romano, o problema da deserção tomou novos
contornos. Agora, sendo a igreja majoritária e aliada ao poder civil, era
altamente desejável permanecer nela, e muito arriscado deixá-la.
Surgiu assim uma inversão de situações: enquanto nos três primeiros
séculos muitos abandonavam a igreja para não serem perseguidos, agora essa
deserção é que se tornou passível de castigo, principalmente no caso dos
heterodoxos. Um bispo espanhol, Prisciliano, e alguns de seus seguidores,
foram os primeiros indivíduos a serem executados por heresia na história
do cristianismo, em 385.[2]
Tal situação perdurou ao longo de toda a Idade Média. No contexto
da “cristandade”, ou seja, a sociedade europeia fortemente influenciada
pela Igreja Romana, o problema do abandono da igreja ou da fé ficou
relativamente minimizado. Todas as pessoas eram batizadas na infância e se
tornavam nominalmente cristãs. Os súditos de um estado eram ao mesmo tempo
membros da única igreja. Cidadania e fé se equivaliam. Nesse contexto, não
havia nenhuma tentação ou oportunidade para abandonar a comunidade
eclesial. Essa realidade se alterou profundamente com o surgimento da
Reforma Protestante. Esse movimento rompeu a cristandade e introduziu o
princípio da diversidade religiosa no contexto do cristianismo europeu.
Tal fato incentivou o trânsito das pessoas de uma confissão religiosa para
outra. Além disso, o advento de uma mentalidade secularizante, associada
com o Renascimento e o Humanismo, levou muitas pessoas a simplesmente
rejeitarem qualquer religiosidade institucional.
Curiosamente, por um bom tempo as novas igrejas protestantes mantiveram a
mentalidade hegemônica do catolicismo medieval. Em todas as nações ou
regiões protestantes havia uma igreja oficial, fosse ela luterana, reformada
ou anglicana, e os adeptos de outros grupos eram submetidos a diversas
restrições. A única exceção eram os anabatistas, que rejeitavam qualquer associação entre
a igreja e o estado. Esse sistema se transferiu para as colônias
inglesas da América do Norte, onde cada colônia tinha a sua própria igreja
oficial e os dissidentes sofriam sérias limitações e até mesmo rigorosas
punições, como foi o caso dos quacres em Massachusetts. Finalmente, com a
independência americana e a consagração da norma constitucional de
separação entre igreja e estado, surgiu o fenômeno conhecido como
denominacionalismo, ou seja, uma situação em que as mais diversas
confissões religiosas têm exatamente o mesmo status e plena igualdade
diante da lei, ninguém podendo ser punido por pertencer a este ou aquele
grupo confessional, ou a nenhum deles. [3]
Evidentemente essa situação estimulou ainda mais a “infidelidade
eclesiástica”. Como as pessoas tinham muitas opções religiosas, e não
sofriam nenhuma sanção se transitassem de uma para outra, esse fato passou
a ocorrer com frequência. Outras pessoas, por diferentes razões,
simplesmente deixavam suas comunidades de origem e não se filiavam a
nenhuma outra, optando por uma vida irreligiosa.
2. No Brasil
Como é sobejamente conhecido, dois tipos de igrejas protestantes
foram implantados no Brasil no século 19: aquelas constituídas de
imigrantes europeus, como a anglicana e a luterana, e aquelas surgidas
como resultado da atividade missionária europeia e norte-americana
(congregacionais, presbiterianos, metodistas, batistas, episcopais e
outros). Embora imperasse no país a união entre igreja e estado, sendo a
Igreja Romana a religião oficial do império, entre as igrejas
protestantes, principalmente as de origem missionária, ocorria na prática
o fenômeno do denominacionalismo, que se consagrou definitivamente com o
advento da República.
Por muito tempo houve considerável trânsito de membros entre as denominações tradicionais,
o que era visto com certa naturalidade. Ninguém se espantava ou se afligia
se um presbiteriano passava a frequentar uma igreja batista, ou um
congregacional se tornava metodista. Por causas das afinidades entre essas
igrejas, tais transferências não chegavam a chocar. Isso ocorria inclusiva
com pastores: no início do século 20, dois ministros metodistas de igual
sobrenome, Manoel de Arruda Camargo e Jovelino Moraes de Camargo, serviram
a igreja presbiteriana por alguns anos, sem que isso causasse
qualquer estremecimento entre as duas denominações. [4]
Muito diferente era a situação em que o afastamento de membros ocorria num
contexto conflitivo, quer como resultado de cismas, adesão a grupos
considerados heterodoxos ou quebra de padrões doutrinários e éticos. A
seguir, são examinados alguns desses casos em conexão com a igreja
presbiteriana brasileira.
2.1 Cisões ou Cismas
Historicamente,
a ocorrência de divisões nas igrejas tem sido uma causa importante para o
afastamento de membros. O primeiro cisma ocorrido no incipiente
presbiterianismo nacional foi aquele associado ao Dr. Miguel
Vieira Ferreira (1837-1885), engenheiro pertencente a uma família
aristocrática do Maranhão. Em abril de 1874, ele foi recebido por profissão
de fé e batismo pelo Rev. Alexander Blackford, na Igreja Presbiteriana do
Rio de Janeiro. Poucos meses depois foi eleito presbítero e acompanhou o
missionário em algumas viagens evangelísticas. O pastor seguinte daquela
igreja, Rev. Dillwin M. Hazlett, estando envolvido com outras atividades,
entregou-lhe o púlpito com frequência. Dotado de um temperamento místico,
que anteriormente o havia levado a envolver-se com o espiritismo, o Dr.
Miguel começou a fundamentar seu ensino em sonhos e visões, pretendendo
ter revelações diretas de Deus. Em fevereiro de 1879, ele foi suspenso do
presbiterato. Em setembro daquele ano retirou-se da igreja com 27 pessoas,
muitas delas de sua família, criando a Igreja Evangélica Brasileira, uma
pequena denominação que existe até os dias de hoje. [5] Esse episódio foi
objeto de várias análises do professor Émile Léonard, que o considerou um
caso de “iluminismo” protestante. [6]. Do ponto de vista pastoral, vale
destacar a temeridade dos missionários em ordenar ao presbiterato
esse indivíduo recém-convertido e posteriormente confiar-lhe o púlpito.
Posteriormente, com o cisma de 1903, que resultou no surgimento da Igreja
Presbiteriana Independente, um número muito maior de membros deixou a
igreja presbiteriana “sinodal”, gerando incontáveis amarguras por anos a
fio. A partir da década de 1960, o movimento de renovação espiritual e
posteriormente as influências neopentecostais continuaram a produzir
divisões e afastamento de membros. Por sua natureza e por seu caráter
coletivo, esse tipo de evasão dificilmente pode ser sanado, embora ocorram
casos em que as pessoas acabam se decepcionando com o grupo separatista e
fazem o caminho de volta.
2.2 Adesão a Outros Grupos Religiosos
Outro
motivo para a evasão de membros tem sido o retorno à confissão religiosa
original ou a filiação a outros grupos, evangélicos ou não. São um tanto
comuns nos anais da história presbiteriana os casos em que membros vindos
do catolicismo retornavam à velha igreja ou ingressavam nas
fileiras espíritas. Porém, com mais frequência os líderes lamentam a
adesão de fiéis a “seitas” protestantes, como sabatistas, pentecostais e
outros movimentos. [7]. Um exemplo interessante pode ser visto no primeiro
livro de atas do conselho da Igreja Presbiteriana de Guarapuava, no
interior do Paraná, organizada em 1889. Em maio de 1921, o conselho dessa
igreja excluiu do seu rol 12 pessoas por terem se filiado à Igreja
Presbiteriana Independente, 14 à Igreja Luterana, 23 aos sabatistas e duas
aos espíritas. [8]. É importante lembrar que muitos desses indivíduos
residiam fora da sede e recebiam escassa assistência pastoral, um problema
comum na época. Além disso, tais deserções provavelmente ocorreram ao
longo de vários anos. No caso das adesões à Igreja Luterana, todos os envolvidos
eram de origem alemã.
Em sua história do presbiterianismo brasileiro, Júlio Andrade Ferreira
se refere ao “duro golpe” sofrido pela Igreja Presbiteriana do Brás, em
São Paulo, quando foi implantada no mesmo bairro a Congregação Cristã no
Brasil.[9] Em outro lugar ele fala das visitas do Rev. Roberto
Frederico Lenington a Ponta Grossa, no Paraná, “onde os adventistas
andavam dizimando o rebanho”.[10] Obviamente, essas incursões
proselitistas acabavam por afastar membros individuais e famílias inteiras
de muitas igrejas presbiterianas.
2.3 Abandono da Fé
Um
terceiro fator motivador de abandono das fileiras das igrejas era
a renúncia à fé, por diferentes motivos. Particularmente lamentadas eram
as deserções resultantes da quebra dos padrões éticos das igrejas
evangélicas, em especial na forma de vícios e adultério. Um caso
ilustrativo é o do Dr. Antônio Teixeira da Silva (1863-1917), advogado
natural de Tietê e irmão de D. Alexandrina Braga, mãe do Rev. Erasmo
Braga. Ele era formado pela Faculdade de Direito de São Paulo, foi diretor
do Liceu de Artes e Ofícios e lecionou por vários anos no Curso Comercial
Superior do Mackenzie College. Em 1900, foi recebido por profissão de fé
por seu sobrinho na Igreja Presbiteriana de Niterói e se tornou um dos
primeiros membros da Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo. Por alguns
anos, revelou-se vigoroso propagandista da fé evangélica, pregando em
praças públicas e escrevendo folhetos e livros. Sua principal obra foi O
catolicismo romano e o cristianismo puro (1902), que teve grande circulação.
Foi um dos organizadores da Aliança Evangélica da capital paulista e um
dos líderes iniciais do Esforço Cristão.[11]
No início de 1906, o Dr. Teixeira da Silva comunicou ao conselho da sua
igreja que “tinha descrido do evangelho e vivia na transgressão do
sétimo mandamento”, pedindo o seu desligamento do rol de comungantes.[12]
Por vários anos esteve afastado da fé. Porém, segundo os registros da época,
durante a enfermidade que o levou à morte, mostrou-se contrito e arrependido.
[13]. Os livros de atas das primeiras igrejas presbiterianas estão
repletos de registros de demissão de membros por motivos semelhantes. Por
outro lado, alguns se afastavam simplesmente por terem deixado de crer,
sem terem cometido alguma transgressão moral. Em sua obra clássica sobre o
presbiterianismo nacional, o historiador Vicente Themudo Lessa se refere a
vários indivíduos que ingressaram na igreja, mas “não perseveraram na fé”.
Entre outros, ele menciona o médico e cientista Vital Brasil Mineiro da
Campanha; o jornalista e poeta Teófilo Barbosa; o candidato ao ministério
e mais tarde advogado Randolfo Campos; Ricardo Figueiredo, diretor
de O Estado de São Paulo, e Agnelo Costa, advogado, político e
jornalista no Maranhão. [14]
3. O Cenário Atual
Como se
percebe, a evasão de membros é um fenômeno antigo no
protestantismo brasileiro, porém nos últimos anos adquiriu proporções
alarmantes. O censo de 2010 realizado pelo IBGE revelou um contingente de
quatro milhões de evangélicos que declararam não estar filiados a nenhuma
igreja. Não se trata de pessoas que deixaram de abraçar a fé cristã e
evangélica. Elas continuam a se considerar cristãs ou evangélicas, mas não
julgam necessária uma vinculação eclesiástica. Para designar esses
indivíduos, foi criado no Brasil há alguns anos o neologismo
“desigrejados”, correspondente ao inglês “unchurched”. Um estudo
recente sobre o assunto foi feito por Idauro Campos, pastor congregacional
em Niterói e professor em diversos seminários da região. Sua dissertação
de mestrado em Ciências da Religião no Seminário Teológico Congregacional
do Estado do Rio de Janeiro foi publicada com o título Desigrejados:
teoria, história e contradições do niilismo eclesiástico.[15] As
referências bibliográficas arroladas por esse autor revelam o vasto número de
estudos que têm se voltado para o tema nos últimos anos.[16]
Sua pesquisa revela duas causas principais para o fenômeno dos sem-igreja.
Muitos membros deixam as igrejas evangélicas, principalmente
neopentecostais, por se decepcionarem com líderes autoritários,
controladores, ávidos por dinheiro, prestígio e poder. [17]. Essas pessoas
se ressentem da exploração espiritual, emocional e financeira a que foram
submetidas por pastores inescrupulosos. Todavia, muitas delas acabam
procurando outras igrejas nas quais a liderança é exercida dentro de
moldes mais bíblicos. O segundo grupo é constituído daqueles que renunciam
às suas congregações por não mais acreditarem na igreja institucional. Os
porta-vozes desse movimento argumentam que o uso de templos, a existência
de ministros ordenados e o ensino por meio de prédicas, entre outros
fatores, são exemplos da paganização da igreja, do seu afastamento da
simplicidade do cristianismo original. [18] Tais líderes propõem uma
espiritualidade centrada em pequenos grupos, reuniões em
contextos informais e um mínimo de aparato institucional. Entre eles estão
Frank Vila e George Barna, nos Estados Unidos, e Caio Fábio e Paulo Brabo,
no Brasil.
Embora tenha simpatia pelo primeiro grupo, aqueles que deixaram suas igrejas
por terem sido “feridos em nome de Deus”, Campos discorda firmemente dos
proponentes de uma “terceira reforma”. Enquanto que a primeira, a
dos reformadores do século 16, teria sido doutrinária, e a segunda, a dos
pietistas, teria ocorrido no âmbito da espiritualidade, a terceira seria
eclesiológica, implicando numa profunda reformulação da igreja
institucional. Conquanto reconheça, como é correto, os erros da igreja
enquanto instituição, inclusive no âmbito protestante, o referido autor
apresenta vários argumentos em sua defesa: o questionamento da igreja
visível não é novo na história do cristianismo, tendo ocorrido muitas
vezes no passado[19]; embora a igreja neotestamentária tivesse uma
organização bastante singela, já se percebem os sinais de uma institucionalização
incipiente, como as instruções a respeito dos oficiais; nenhuma
organização pode prescindir de alguma estruturação formal – isso é próprio
de todo grupamento humano. Mesmo que um movimento denomine suas unidades
de “estações do caminho” (Caio Fábio), mais cedo ou mais tarde elas irão
ter características de igrejas.
Uma das críticas mais pertinentes feitas por Campos aos proponentes da
desvinculação com a igreja tem a ver com a “crise de pertencimento”
da sociedade pós-moderna. [20] A mentalidade contemporânea caracteriza-se
por elementos como o relativismo, o pluralismo e o individualismo
exacerbados. Nesse contexto, são desfeitos os vínculos de lealdade com as
instituições. Esse autor conclui: “Mesmo que não percebam ou que não
admitam, muito da energia dos desigrejados vem da pós-modernidade. Antes
de ser uma revolução (como acreditam) é tão somente um reflexo do momento
pelo qual a sociedade passa”.[21]
Uma ressalva que se pode fazer a esse valioso estudo é o fato de deixar
de considerar outros fatores igualmente importantes no processo de
desigrejação, como aqueles que foram considerados acima na história do
presbiterianismo brasileiro. Além da decepção com líderes abusivos e com
doutrinas e práticas heterodoxas, e além do questionamento ideológico da
igreja como instituição, a realidade é que muitas pessoas continuam
deixando as suas congregações por participarem de movimentos cismáticos,
se sentirem atraídas por igrejas mais empolgantes, não se submeterem à
disciplina quando envolvidas com práticas conflitantes com a fé cristã ou
simplesmente por passarem a nutrir dúvidas acerca do evangelho.
4. Perspectivas Pastorais
Este artigo não tem em vista simplesmente apresentar uma
perspectiva histórica do problema da evasão de membros e fazer um breve
diagnóstico desse mal que acomete muitas igrejas, mas propor ações
preventivas e corretivas que podem ser empreendidas pelos líderes
cristãos. A evasão de membros é um fenômeno complexo e multifacetado,
decorrente de uma grande multiplicidade de fatores. Existem participantes
ou frequentadores que irão deixar a congregação não importa o que se faça
em relação a eles, mas é certo que muitos deixarão de fazê-lo se forem
tomadas atitudes adequadas em relação aos problemas que enfrentam ou aos
questionamentos que nutrem com relação à igreja. A seguir, são apontados
alguns elementos a serem considerados por aqueles que se preocupam com
esse desafio.
4.1 Autocrítica
Em primeiro lugar, pastores e presbíteros precisam admitir que suas
igrejas não são perfeitas e podem ter características que tenderão a
afastar alguns de seus integrantes. O tradicionalismo, as formas rígidas
de culto e organização, a incapacidade de se adaptar a novas realidades, a
falta de abertura para o diálogo e outros fatores correlatos estão
presentes em muitas igrejas e acabam por gerar insatisfação e finalmente
evasão. Alguém disse que muitas vezes a igreja fica eternamente
respondendo perguntas que as pessoas não estão fazendo e, por outro lado,
deixa de responder as que elas estão levantando. Isso dá aos fiéis a
percepção de que suas necessidades, dúvidas e carências não estão sendo
supridas. Se é bem verdade, desde uma perspectiva reformada, que o alvo
precípuo da igreja é a glória de Deus e não a satisfação de
necessidades, por outro lado a igreja tem o dever de ministrar aos seus
participantes em suas carências espirituais, emocionais, relacionais e
outras.
Outro aspecto crucial diz respeito às oportunidades que as pessoas,
todas as pessoas, devem ter na igreja de exercer os ministérios e dons
confiados por Deus. Aqui, dois erros extremos podem ocorrer, um de falta e
outro de excesso. Existem membros que se frustram porque raramente têm
espaço para fazer alguma coisa, para dar a sua contribuição. Por exemplo, aquela
pessoa que nunca tem a oportunidade de fazer uma oração no culto público
ou de ter qualquer outra participação na liturgia. Ou então quem nunca
recebe um convite para exercer algum cargo, emitir uma opinião ou
colaborar em alguma área na qual tem conhecimento ou experiência. Todavia,
também existe o perigo oposto, que é sobrecarregar as pessoas com
atividades, deixando-as exaustas e sem tempo para outros interesses, sejam
eles familiares ou comunitários. O Rev. Erasmo Braga era crítico dessa
tendência das igrejas de sua época, tendo se referido a esse problema em
vários de seus escritos. [22]
Os dirigentes precisam ser sensíveis e receptivos em relação às reivindicações
e solicitações legítimas de seus fiéis, evitando assim uma evasão
desnecessária. Para isso, é preciso ouvi-los com frequência, exercer o
diálogo constante e, assim, realizar as correções nas normas e práticas
que se façam necessárias, tendo em vista o bem-estar e a continuidade da
participação dos membros.
4.2 Discipulado
Em muitas igrejas locais se verifica uma grande ironia, um grande
paradoxo. Essas igrejas fazem um enorme e apreciável investimento na
área da evangelização, da atração de novas pessoas e famílias para o
evangelho de Cristo. O pastor prega e ensina com frequência a respeito do
assunto, são oferecidos cursos sobre como evangelizar, utilizam-se
publicações ricas e estimulantes sobre o tema, incentiva-se o evangelismo
pessoal e em grupos. Enfim, faz-se um vigoroso esforço para alcançar os
não-crentes. Porém, tão logo essas pessoas se convertem e são recebidas na
igreja, elas são, por assim dizer, esquecidas e caem na rotina da vida da
comunidade. Como elas já estão do lado de dentro, entende-se que não mais
precisam de tanta atenção. É assim que muitos novos membros depois de
algum tempo acabam se decepcionando, perdendo o seu entusiasmo inicial e
abandonando a igreja.
Isso mostra a absoluta necessidade de um elemento complementar
ao evangelismo, que é o discipulado ou a integração dos novos convertidos.
A igreja precisa criar mecanismos pelos quais aqueles que ingressaram na
comunidade possam receber um acompanhamento adequado nos primeiros meses
e anos de sua vida cristã. Em sua autobiografia recentemente publicada, o
Rev. Eber Lenz César, que teve vasta experiência ministerial em vários
estados do Brasil e na África do Sul, mostra como as atividades de
integração foram importantes nesse sentido. [23]
4.3 Pastoreio
Tantos membros novos quanto antigos também precisam de uma
assistência constante e cuidadosa por parte dos pastores e dos presbíteros
regentes. Isso faz lembrar a valiosa exortação de Paulo aos líderes da
igreja de Éfeso: “Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o
Espírito Santo vos constitui bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a
qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20.28). Esse cuidado
inclui uma vigilância constante que permita identificar os problemas ainda
no seu início, a tempo de serem adequadamente diagnosticados e tratados
pastoralmente. Um caso clássico é a repentina ausência dos cultos por uma
pessoa ou família. Tal circunstância muitas vezes sinaliza alguma
dificuldade que deve ser objeto de uma intervenção rápida por parte dos
líderes cristãos. Porém, não somente estas, mas todas as pessoas devem ser
objeto de uma constante preocupação e zelo pastoral.
É bem conhecido o exemplo do notável pastor puritano Richard
Baxter (1615-1691). No fiel desempenho do seu encargo, esse ministro
procurava se encontrar uma vez por ano com cada uma das 800 famílias que
compunham a sua congregação na cidade de Kidderminster, a fim de
instruí-las e aconselhá-las. Em seu famoso clássico The Reformed
Pastor, ele insistiu que os pastores precisam se dedicar à instrução
pessoal e particular do rebanho. Disse ele: “É dever inquestionável dos
ministros em geral que se disponham à tarefa de instruir e orientar
individualmente a todos aqueles que são entregues ao seu cuidado”. [24]
Conclusão: Os líderes cristãos, aí incluídos pastores, presbíteros, diáconos,
professores de escola dominical e outros, nunca devem se esquecer de uma
importante distinção no que diz respeito à igreja. Por um lado, ela é uma
instituição, uma estrutura (organização). Por outro lado, é o conjunto dos
fiéis, o corpo de Cristo (organismo). O primeiro aspecto deve servir o segundo,
não o contrário. A igreja institucional tem como um de seus propósitos
ministrar às necessidades dos fiéis, contribuir para que vivam vidas
plenas em Cristo, sem afastar-se da comunidade da fé, mas estando
plenamente integrados nela.
Em alguns casos, a evasão de membros pode ser algo sem
maiores consequências, como quando alguém deixa uma igreja para filiar-se
a outra igualmente bíblica e sólida. Em outras situações, representa uma
grande perda para a igreja e para as pessoas envolvidas. Esse tema negligenciado
precisa receber maior atenção dos ministros de Deus à medida que
desempenham os diferentes deveres do seu encargo. O afastamento de pessoas
ou a ameaça de afastamento pode indicar problemas que elas estão
enfrentando pessoalmente ou problemas da igreja como um todo. Ambos
precisam ser tratados zelosamente, sob a direção do Espírito Santo e o
ensino das Escrituras.
_____________________
Notas:
[1] Ver: WALKER, Williston. História da igreja cristã. 2 vols. São
Paulo: Aste, 1967, vol. 1, p. 136-39; KELLY, J. N. D.Doutrinas centrais
da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 1994, p. 149-51, 163-66.
[2] DOUGLAS, J. D. (ed. geral). The New International Dictionary of the
Christian Church. 2ª ed. Grand Rapids: Zondervan, 1978, p. 804.
[3] Ver: ELWELL, Walter A. (ed.). Enciclopédia histórico-teológica da
Igreja cristã. Em 1 volume. São Paulo: Vida Nova, 2009, p.
409-412.
[4] LESSA, Vicente Themudo. Anais da 1ª Igreja Presbiteriana de São
Paulo (1863-1903). 2ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p.
224, 322s, 559; FERREIRA, História da Igreja Presbiteriana
do Brasil. 2 vols. 2ª ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992,
p. 76.
[5] Ver: LESSA, 2010, p. 144-47; MATOS, Alderi S. Os pioneiros
presbiterianos do Brasil (1859-1900): missionários, pastores e leigos
do século 19. São Paulo: Cultura Cristã, p. 461-63.
[6] Ver: LÉONARD, Émile-G. O protestantismo brasileiro. 3ª ed. São
Paulo: Aste, 2002, p. 76-79; idem, O iluminismo num protestantismo
de constituição recente. São Paulo: Ciências da Religião,
1988. Iluminismo aqui significa o apelo a revelações diretas de Deus.
[7] Diversos pastores escreveram livros ou opúsculos combatendo esses grupos.
Por exemplo: Jerônimo Gueiros, “A heresia pentecostal”; Alcides Nogueira,
“Heresias sabatistas”.
[8] Atas da Sessão da Igreja Presbiteriana de Guarapuava (1889-1927),
07.05.1921, fl. 168s.
[9] FERREIRA, Júlio A. História da Igreja Presbiteriana do Brasil.
2 vols. 2ª ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992, vol. 2, p.
202.
[10] FERREIRA, 1992, vol. 2, p. 130. Na mesma página, ele afirma que o Rev.
George Landes visitava todo o litoral de Santa Catarina, “já atacado por
adventistas”.
[11] Matos, 2004, p. 483.
[12] 1º Livro de Atas da Sessão, Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo,
04.01.1906, fl. 175s.
[13] LESSA, 2010, p. 537; O Estandarte, 01.02.1917, p. 11.
[14] LESSA, 2010, p. 183, 359, 433, 533, 563.
[15] CAMPOS, Idauro. Desigrejados: teoria, história e contradições
do niilismo eclesiástico. São Gonçalo, RJ: Editora Contextualizar, 2013.
Prefácio de Augustus Nicodemus Lopes.
[16] Por exemplo: AGRESTE, Ricardo. Igreja? Tô fora. Santa Bárbara
D’Oeste, SP: Socep, 2009; AZEVEDO, Israel Belo de. Gente cansada
de igreja. São Paulo: Hagnos, 2010; BARNA, George. Revolução.
São Paulo: Abba Press, 2007; BITUN, Ricardo. Mochileiros da fé. São
Paulo: Editora Reflexão, 2011; BOMILCAR, Nelson. Os sem-igreja.
São Paulo: Mundo Cristão, 2012; BRABO, Paulo. Bacia das almas:
confissões de um ex-dependente de igreja. São Paulo: Mundo Cristão, 2009;
CÉSAR, Marília de Camargo. Feridos em nome de Deus. São
Paulo: Mundo Cristão, 2009; D’ARAÚJO FILHO, Caio Fábio. Aos desigrejados e
aos que não sofrem de amnésia e outros textos. Disponível em: www.caiofabio.net;
FERNANDES, Carlos. Desigrejados: fenômeno que cresce. Cristianismo Hoje,
edição 37, ano 7, 2013, p. 18-25; FERNANDES, Danilo. Série: Desigrejados.
Disponível em: www.genizahvirtual.com.br; GOIS, Antônio e SCHWARTSMAN, Hélio.
Cresce o número de evangélicos sem ligação com igrejas. Folha de
São Paulo, 15 ago. 2011. Disponível em: www1.folha.uol.com.br;
JACOBSEN, Wayne e COLEMAN, Dave. Por que você não quer ir à
igreja. Rio de Janeiro: Sextante, 2009; KIMBALL, Dan. Eles
gostam de Jesus, mas não da igreja. São Paulo: Vida, 2011; KIVITZ, Ed
René. Outra espiritualidade: fé, graça e resistência. São
Paulo: Mundo Cristão, 2006; LOPES, Augustus Nicodemus. Os desigrejados.
Disponível em: http://tempora-mores.blogspot.com.br;
LOPES, Augustus Nicodemus. O que estão fazendo com a igreja:
ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro. São Paulo:
Mundo Cristão, 2008; RODRIGUES, Denise dos Santos. Os sem religião nos
censos brasileiros: sinal de uma crise de pertencimento institucional.
Belo Horizonte: Horizonte, v. 10, n. 20, out.-dez. 2012, p.
1130-1153; ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça:
esperanças e frustrações no Brasil neopentecostal. São Paulo: Mundo
Cristão, 2005; VIOLA, Frank e BARNA, George. Cristianismo pagão. São
Paulo: Abba Press, 2008; idem, Reimaginando a igreja.
Brasília: Editora Palavra, 2009; WAGNER, Glenn. Igreja S/A: dando
adeus à igreja-empresa e recuperando o sentido da igreja-rebanho. São Paulo:
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Mundo Cristão, 2004; idem, Igreja: por que me importar? São
Paulo: Vida Nova, 2008; ZÁGARI, Maurício. Decepcionados com a igreja. Cristianismo Hoje,
2010. Disponível em: www.cristianismohoje.com.br.
[17] CAMPOS, 2013, p. 33-50.
[18] CAMPOS, 2013, p. 51-87.
[19] Campos aborda em capítulos separados os seguintes exemplos: o montanismo,
os pais do deserto, o donatismo, Pedro de Bruys e Henrique de Lausanne,
Hugo Speroni, Joaquim de Fiore, os anabatistas, os quakers, os darbistas e
o cristianismo arreligioso de Dietrich Bonhoeffer.
[20] CAMPOS, 2013, p. 177-189.
[21] CAMPOS, 2013, p. 189.
[22] Ver, por exemplo: BRAGA, Erasmo. The Republic of Brazil: A
Survey of the Religious Situation. Londres: World Dominion Press, 1932, p.
96.
[23] CÉSAR, Éber Lenz. Vida de pastor: lembranças de uma jornada.
Rio de Janeiro: Imprimindo Conhecimento, 2014, p. 156. Ver: MOORE, Waylon
B. Integração segundo o Novo Testamento. Rio de Janeiro:
Juerp, 1990.
[24] BAXTER, Richard. Manual pastoral do discipulado. São
Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 27. Ver também ELLIFF, Jim. A cura de
almas. In: ARMSTRONG, John (Org.). O ministério pastoral segundo a
Bíblia. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 151-171.
***
Autor: Rev. Alderi Souza de
Matos - tem o grau de Doutor em Teologia (Th.D.) pela Escola de
Teologia da Universidade de Boston. É professor de teologia histórica no
CPAJ e historiador da Igreja Presbiteriana do Brasil.
Márcio Melânia
Mestre em
Gestão Pública
http://lattes.cnpq.br/5648348525008521
"Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados,
sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será
convosco."
(2 Coríntios 13 : 11)
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